Em 2005, tivemos o plebiscito sobre o Desarmamento. Tão logo a notícia do polêmico plebiscito fora divulgada, eu, sinceramente, acreditava que todos votariam a favor do desarmamento. Afinal, do alto de todo meu conhecimento absoluto e inquestionável de 18 anos de idade sabia que armas eram ontologicamente “erradas”. Como eu seria a favor de algo que foi construído essencialmente para matar outros seres humanos?
Minha surpresa e conseqüente decepção com os brasileiros começou na faculdade de Relações Internacionais. Um professor, despretensiosamente, fez uma votação informal para saber o que pensávamos. Em uma turma de cinqüenta, 12 eram a favor do desarmamento. Uma turma de futuros internacionalistas? Pessoas que deveriam pensar o mundo e se preocupar com o futuro da humanidade. Aquilo me pareceu muito errado. Na minha turma de Direito o número de pessoas a favor era basicamente o mesmo, mas minha turma tinha cem pessoas. Todavia, o resultado na minha turma de Direito era esperado. Eles tinham uma visão mais egocêntrica. Todos queriam ser juízes, promotores e delegados, ter porte de arma, ser cidadãos de bem e utilizarem suas armas para se protegerem da patuléia que os cercava no centro da cidade no caminho para o ônibus do condomínio com ar-condicionado.
Estamos em 2008, e hoje, com 21 anos, eu vejo as coisas de maneira diferente. Eu entendi. Afinal, quantas pessoas morrem no Brasil por armas de fogo, 550 mil (entre 97-03)? O que é isso comparado aos conflitos Israel-Palestina? Em que 125 mil pessoas morreram em 53 anos de conflito ou na Guerra do Golfo? Que matou o quê? Cerca de 2 mil pessoas, no máximo? Não se entende o resultado da votação até perceber quem morre por armas de fogo. Se você é jovem (
O que me deixa mais frustrada é que as pessoas não percebem que, na verdade, nessa violência armada TODOS perdem. O BID fez uma avaliação que para reverter os efeitos da violência armada a América Latina teria que gastar 170 bilhões. Muitos questionam: ah, mas o que o Brasil tem a ver com isso?
1 – o Brasil faz parte da América Latina quer vocês queiram ou não;
2 – o Brasil é o maior exportador regional de SALW (Small Arms and Light Weapons, também chamadas de Armas Pequenas e Armamento Leve - Apal);
E o que os cidadãos “de bem” têm a ver com isso?
- Existem, pelo menos, 650 MILHÕES de armas de fogo no mundo nas mãos de civis, o que corresponde a 75% do total. Eles são a maior fonte do mercado ilegal, visto que todo anos, são esses “cidadãos de bem” que compram mais de 80% das armas de fogo fabricadas no mundo inteiro. E atualmente, essas armas são utilizadas em quase todos os conflitos do mundo por serem baratas, fáceis de usar e portáteis.
Hoje, como eu já havia dito, eu penso de maneira diferente. Eu não sou contra as armas porque elas são ontologicamente erradas. Eu sou contra porque eu sei que elas atrasam o desenvolvimento quando elas destroem os aparatos do Estado, além de tornar a segurança pública em um desafio muito maior ou uma quase guerra. Eu sou contra porque eu sei que elas tornam mais fácil que outros crimes como estupro e roubo ocorram. Eu sou contra porque só até junho desse ano 241000 pessoas haviam morrido diretamente por armas de fogo, isso sem contar as mortas por causas relacionadas. Eu não quero esse sangue em minhas mãos, agora que eu sei, eu não posso me esquivar da responsabilidade. E você? O que vai fazer a respeito?