quinta-feira, 4 de junho de 2009

Cotas, homogeneização e o mundo pós-moderno

Na emocionante aula de Política Externa Brasileira, hoje, surge a velha discussão da qualificação das cotas. Reparação? Nova segregação? (In)Justiça? Erro histórico? Enfim, não vou fazer aqui juízo de valor sobre porque, se você, leitor, está perdendo seu tempo lendo essas palavras, sabe melhor do que eu que há muitos e mais bem informados debatedores sobre a questão. Tenho minha opinião e ponto.

O ponto principal pra se dicutir é: temos um problema. Um problemão. Não é novo - oras, discutir inclusão e exclusão é tão velho quanto andar pra frente, tão velho quanto se formaram as primeiras sociedades e as mesmas quiseram hierarquizar o papel de cada um (leia-se gregos, romanos, chineses, egípcios, fenícios, persas, bla bla bla). Só que para cada época, uma solução foi sempre dada, resolvendo o problema momentaneamente e postergando suas consequências para futuras gerações.

Os gregos diziam que cidadãos eram aqueles que tinham nascido em seu território; o resto eram bárbaros e podiam (e deviam) naturalmente ser escravos para se aproximar do centro cultural do mundo. O problema é que um dia os "bárbaros" eram tão numerosos e, por vezes, tão superiores intelectualmente que a situação ficou insustentável.

Então vieram os romanos e diziam que o Império era o centro do mundo e seus entornos eram povoados por bárbaros. O império se expandiu, se expandiu, se expandiu até o limite máximo - quando não podia mais expandir, não se manteve, pois seu sistema econômico girava em torno das conquistas. E os bárbaros invadiram.

Chineses e não-chineses existiram na época de Qin Shi Huang e a centralização no imperador, do império Song e os mongóis, dos Ming e "a idade de ouro", dos Qing e os manchus e existem até hoje com a tática de homogeneização han. Como visto, perdura.

O Estado-nação como conhecemos é do século XIX. Sua premissa é que, dentro desse território, a homogeneização da população em torno do sentimento nacional é um dado que sustenta as instituições da comunidade política. Mas sentimento nacional é absolutamente excludente: por um lado, porque um Estado só o é assim porque não é igual aos seus vizinhos, logo, quer esse destaque; por outro, porque pra que todos partilhem dos mesmos valores, necessariamente valores minoritários são sumariamente excluídos e varridos pra baixo do tapete. Quando do século XIX e os problemas da expansão imperial intra-européia e de alocação trabalhista pós-revolução industrial, isso era uma beleza, funcionava todos os problemas. O ponto é que o mundo moderno do século XIX não existe mais.

As alocações trabalhistas nacionais já transbordaram pro internacional desde, pelo menos, a década de 70. O fluxo migratório legal ou ilegal (casos da Europa e EUA/Am. Central, por exemplo) é um dado que contesta a homogeneização. A globalização nos traz uma mundialização cultural que, se afloura a cultura local por um lado, tenta impôr outra global (McDonald's, Hollywood, Coca-Cola, futebol, bla bla bla).

O mundo é pós-moderno. Mas as instituições nas quais vivemos são modernas. O Estado. A Nação. A Soberania. É lidar com instrumentos do passado aos problemas do presente e futuro. É o problema da Igreja no Renascimento. É o problema da França pré-revolucionária no antigo regime. É o problema da Terra com as questões globais. É o problema dos terráqueos quando da invasão dos ETs em "Independence Day" (Hollywood...)

No Brasil, não é diferente - tirando os ETs (sorry, Serra). A homogeneização racial do século XIX quando da abolição da escravidão e da formação do sentimento nacional brasileira não foi baseado na "mistura das raças", mas na branquização (mais que "étnica", cultural) da população. Até então, resolvera o problema do sentimento nacional, mas empurrava os outros pra baixo do tapete. O ponto é que esse tapete tem um limite e não esconde mais tanta coisa. Daí os problemas, daí o debate (que é produtivo, por favor!), e daí, infelizmente, a ausência de soluções além da dicotomia positivista de inclusão/exclusão, cotas/ausência.

Trabalhemos para idealizar e formar, na prática, tais instituições. Só não esperemos que inquisições, cabeças cortadas ou um presidente norte-americano dirigindo um caça contra uma nave gigante seja nossa salvação...

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