O ponto principal pra se dicutir é: temos um problema. Um problemão. Não é novo - oras, discutir inclusão e exclusão é tão velho quanto andar pra frente, tão velho quanto se formaram as primeiras sociedades e as mesmas quiseram hierarquizar o papel de cada um (leia-se gregos, romanos, chineses, egípcios, fenícios, persas, bla bla bla). Só que para cada época, uma solução foi sempre dada, resolvendo o problema momentaneamente e postergando suas consequências para futuras gerações.
Os gregos diziam que cidadãos eram aqueles que tinham nascido em seu território; o resto eram bárbaros e podiam (e deviam) naturalmente ser escravos para se aproximar do centro cultural do mundo. O problema é que um dia os "bárbaros" eram tão numerosos e, por vezes, tão superiores intelectualmente que a situação ficou insustentável.
Então vieram os romanos e diziam que o Império era o centro do mundo e seus entornos eram povoados por bárbaros. O império se expandiu, se expandiu, se expandiu até o limite máximo - quando não podia mais expandir, não se manteve, pois seu sistema econômico girava em torno das conquistas. E os bárbaros invadiram.
Chineses e não-chineses existiram na época de Qin Shi Huang e a centralização no imperador, do império Song e os mongóis, dos Ming e "a idade de ouro", dos Qing e os manchus e existem até hoje com a tática de homogeneização han. Como visto, perdura.
O Estado-nação como conhecemos é do século XIX. Sua premissa é que, dentro desse território, a homogeneização da população em torno do sentimento nacional é um dado que sustenta as instituições da comunidade política. Mas sentimento nacional é absolutamente excludente: por um lado, porque um Estado só o é assim porque não é igual aos seus vizinhos, logo, quer esse destaque; por outro, porque pra que todos partilhem dos mesmos valores, necessariamente valores minoritários são sumariamente excluídos e varridos pra baixo do tapete. Quando do século XIX e os problemas da expansão imperial intra-européia e de alocação trabalhista pós-revolução industrial, isso era uma beleza, funcionava todos os problemas. O ponto é que o mundo moderno do século XIX não existe mais.
As alocações trabalhistas nacionais já transbordaram pro internacional desde, pelo menos, a década de 70. O fluxo migratório legal ou ilegal (casos da Europa e EUA/Am. Central, por exemplo) é um dado que contesta a homogeneização. A globalização nos traz uma mundialização cultural que, se afloura a cultura local por um lado, tenta impôr outra global (McDonald's, Hollywood, Coca-Cola, futebol, bla bla bla).
O mundo é pós-moderno. Mas as instituições nas quais vivemos são modernas. O Estado. A Nação. A Soberania. É lidar com instrumentos do passado aos problemas do presente e futuro. É o problema da Igreja no Renascimento. É o problema da França pré-revolucionária no antigo regime. É o problema da Terra com as questões globais. É o problema dos terráqueos quando da invasão dos ETs em "Independence Day" (Hollywood...)
No Brasil, não é diferente - tirando os ETs (sorry, Serra). A homogeneização racial do século XIX quando da abolição da escravidão e da formação do sentimento nacional brasileira não foi baseado na "mistura das raças", mas na branquização (mais que "étnica", cultural) da população. Até então, resolvera o problema do sentimento nacional, mas empurrava os outros pra baixo do tapete. O ponto é que esse tapete tem um limite e não esconde mais tanta coisa. Daí os problemas, daí o debate (que é produtivo, por favor!), e daí, infelizmente, a ausência de soluções além da dicotomia positivista de inclusão/exclusão, cotas/ausência.
Trabalhemos para idealizar e formar, na prática, tais instituições. Só não esperemos que inquisições, cabeças cortadas ou um presidente norte-americano dirigindo um caça contra uma nave gigante seja nossa salvação...