Para quem estuda a história e vê uma conexão direta entre passado, presente e futuro, às vezes é complicado distanciar-se o suficiente para ter essa noção do que, de fato, hoje, fará alguma, qualquer diferença em 10, 50 ou 200 anos. Em 10 anos o problema entre a Rússia e a Geórgia ainda terá relevância; em 50, a invasão ao Iraque provavelmente ainda terá; em 200, temos o 11 de setembro que, aposto, será marco fundamental de "eras históricas"
O próprio conceito de "era" é problemático. Obviamente algo post facto, determina, de forma arbitrária, um sistema, um "modo de produção", valores comuns, culturas, enfim, mostra a diferença de algo mais antigo com algo mais recente. Claro que tentar engessar algo fluido, artificializar um objeto não-articializável, não só é problemático como errado; mas não deixa de ser, grosso modo, uma forma de explicar o mundo à nossa maneira.
| Pré-história Das origens do homem até c. 4000 a.C. | Antiguidade De c. 4000 a.C. a 476 | Idade Média De 476 a 1453 | Idade Moderna De 1453 a 1789 | Idade Contemporânea de 1789 aos dias atuais |
Entrando nesse espírito, em que era vivemos? Os tempos contemporâneos, marcados pela revolução francesa? Mas o que nos liga aos europeus dos fins de século XVIII, aos impérios do século XIX? Qual a correlação entre as Guerras Napoleônicas, as Guerras Mundiais, a Guerra Fria e a "Guerra contra o Terror"? Mesmo os costumes, a cultura, o "modo de produção" ou seja lá como quiser definir uma era histórica - é a mesma?
Não, não vivemos em uma mesma era. A era é nova. Talvez a Era Atômica pós-Segunda Guerra. Quem sabe a Era do Espaço pós-chegada à Lua. Talvez também a Era da Globalização pós-choques do petróleo. Ou a Era da Hegemonia pós-Guerra Fria? Pra mim, mais do que isso.
Explico: uma das formas de separação das eras é a energia principal utilizada para o desenvolvimento humano. Força do homem, na pré-história; tração animal na idade antiga; traça maquinária na idade média; carvão na idade moderna; petróleo na contemporaneidade - bem aproximado e grosseiro, mas é comum ver ciclos de energia na história do homem e como a necessidade de produção/busca por eficiência/sobrevivência leva a novas formas energéticas mais eficientes e, daí, uma mudança brusca no sistema produtivo, social, econômico, político vigente. Oras, ainda que o petróleo seja a principal força energética que nos sustenta, entramos em nova era - a Era Atômica. O fim da Segunda Guerra poderia ser uma data suficiente para essa Era, absolutamente diferente da anterior e com sua constância sócio-política-econômica própria.
Ou não. O estudo da história foi sempre muito concentrado na Europa e tais "eras" pautam-se exclusivamente na história européia; algo absolutamente insuficiente para o mundo como um todo. Pensar, portanto, no mundo como um todo poderia nos levar a uma nova forma de categorização, de acordo com a aproximação de civilizações, por exemplo. Encontros raros, primeiras formas de diplomacia com China-Roma, o sistema tributário chinês, as grandes navegações, as colonizações, os Impérios, as Guerras Mundiais, a globalização e o "choque de civilizações" - exemplos grosseiros de eras do mundo, dessa forma.
Mas o mundo é feito por pessoas, não Estados ou afins. Definir, pois, eras de um mundo pautado em acordos de personalidades e heróis ou burocracias impessoais é sair da história que vivemos do cotidiano. Qual é o seu papel pra história? Nenhum? Votar em um outro alguém que ficará "famoso"? Virar um número em uma manifestação, em um Censo, em um genocídio? Ou passar, despercebido, na história?
Ou podemos parar de divagar sobre essas bobeiras positivistas e parar de cristalizar esse fluxo de mão única que é a história. Mas, sim, nos perguntar: a atual crise financeira que estamos vivendo será importante daqui a 10 anos? 50? 200? Mudará o mundo? Ou só dela nos lembraremos na "Retrospectiva 2008" da Globo?