quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A História do Cotidiano

Em meio à essa crise de proporções hercúleas, pensar que estamos vivendo um capítulo que entrará, daqui a 10 anos, nos livros de história não é exagero.
Para quem estuda a história e vê uma conexão direta entre passado, presente e futuro, às vezes é complicado distanciar-se o suficiente para ter essa noção do que, de fato, hoje, fará alguma, qualquer diferença em 10, 50 ou 200 anos. Em 10 anos o problema entre a Rússia e a Geórgia ainda terá relevância; em 50, a invasão ao Iraque provavelmente ainda terá; em 200, temos o 11 de setembro que, aposto, será marco fundamental de "eras históricas"
O próprio conceito de "era" é problemático. Obviamente algo post facto, determina, de forma arbitrária, um sistema, um "modo de produção", valores comuns, culturas, enfim, mostra a diferença de algo mais antigo com algo mais recente. Claro que tentar engessar algo fluido, artificializar um objeto não-articializável, não só é problemático como errado; mas não deixa de ser, grosso modo, uma forma de explicar o mundo à nossa maneira.

Pré-história
Das origens do homem até c. 4000 a.C.
Antiguidade
De c. 4000 a.C. a 476
Idade Média
De 476 a 1453
Idade Moderna
De 1453 a 1789
Idade Contemporânea
de 1789 aos dias atuais

Entrando nesse espírito, em que era vivemos? Os tempos contemporâneos, marcados pela revolução francesa? Mas o que nos liga aos europeus dos fins de século XVIII, aos impérios do século XIX? Qual a correlação entre as Guerras Napoleônicas, as Guerras Mundiais, a Guerra Fria e a "Guerra contra o Terror"? Mesmo os costumes, a cultura, o "modo de produção" ou seja lá como quiser definir uma era histórica - é a mesma?
Não, não vivemos em uma mesma era. A era é nova. Talvez a Era Atômica pós-Segunda Guerra. Quem sabe a Era do Espaço pós-chegada à Lua. Talvez também a Era da Globalização pós-choques do petróleo. Ou a Era da Hegemonia pós-Guerra Fria? Pra mim, mais do que isso.
Explico: uma das formas de separação das eras é a energia principal utilizada para o desenvolvimento humano. Força do homem, na pré-história; tração animal na idade antiga; traça maquinária na idade média; carvão na idade moderna; petróleo na contemporaneidade - bem aproximado e grosseiro, mas é comum ver ciclos de energia na história do homem e como a necessidade de produção/busca por eficiência/sobrevivência leva a novas formas energéticas mais eficientes e, daí, uma mudança brusca no sistema produtivo, social, econômico, político vigente. Oras, ainda que o petróleo seja a principal força energética que nos sustenta, entramos em nova era - a Era Atômica. O fim da Segunda Guerra poderia ser uma data suficiente para essa Era, absolutamente diferente da anterior e com sua constância sócio-política-econômica própria.
Ou não. O estudo da história foi sempre muito concentrado na Europa e tais "eras" pautam-se exclusivamente na história européia; algo absolutamente insuficiente para o mundo como um todo. Pensar, portanto, no mundo como um todo poderia nos levar a uma nova forma de categorização, de acordo com a aproximação de civilizações, por exemplo. Encontros raros, primeiras formas de diplomacia com China-Roma, o sistema tributário chinês, as grandes navegações, as colonizações, os Impérios, as Guerras Mundiais, a globalização e o "choque de civilizações" - exemplos grosseiros de eras do mundo, dessa forma.
Mas o mundo é feito por pessoas, não Estados ou afins. Definir, pois, eras de um mundo pautado em acordos de personalidades e heróis ou burocracias impessoais é sair da história que vivemos do cotidiano. Qual é o seu papel pra história? Nenhum? Votar em um outro alguém que ficará "famoso"? Virar um número em uma manifestação, em um Censo, em um genocídio? Ou passar, despercebido, na história?
Ou podemos parar de divagar sobre essas bobeiras positivistas e parar de cristalizar esse fluxo de mão única que é a história. Mas, sim, nos perguntar: a atual crise financeira que estamos vivendo será importante daqui a 10 anos? 50? 200? Mudará o mundo? Ou só dela nos lembraremos na "Retrospectiva 2008" da Globo?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Igreja, Estado e o Aborto de Anencefálicos

Esta semana, entre muitas notícias espetaculosas, vimos que o STF determinou que o julgamento a respeito da legalidade de realizar aborto no caso de gestação de bebês anencefálicos - aqueles que não terão cerébro (ou o terão mal formado) e, portanto, não conseguirão sobreviver muito tempo após o parto. A respeito deste tópico, tenho apenas dois comentários:

1- A Igreja, e o lobby anti-aborto de um modo geral, estava usando como bandeira o caso em que uma menina sobreviveu por cerca de um ano e oito meses sendo anencefálica. Sucede que, na verdade, não era anencefálica. Uma junta de médicos foi ao STF e explicou que a menina sofria de uma outra doença que compartilhava algumas semelhanças na fisionomia do paciente com a anencefalia. Será que houve má vontade por parte do lobby anti-escolha ou foi falta de informação que os levou a levantar esta falsa bandeira?

2- Que raios está fazendo a Igreja no Judiciário, me explica. Até onde eu sei, o Brasil é um Estado Laico, com explícita separação entre a máquina pública e a Igreja. É claro que as religiões têm como influenciar decisões políticas, afinal de contas é sua obrigação prover uma liderança moral e espiritual para seus seguidores. Mas é só pra eles. Apenas o Estado brasileiro deve ter capacidade de influenciar/determinar o que acontece na nossa sociedade de forma universal, independente de raça, sexo, religião, filiação política e demais clivagens; e mesmo assim obedecendo a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição Brasileira.

A separação entre Estado e Igreja não é um vício mesquinho da modernidade. É um avanço na busca da humanidade em tentar evitar conflitos perigosos, aqueles que uma vez que entram numa espiral descendente, raramente acabam sem deixar cicatrizes numa sociedade.

As religiões, de modo geral, atuam no campo da moral, no sistema de valores de seus seguidores, elas influenciam o modo de se enxergar o mundo. Como há diversas religiões, é bem provável que duas ou mais não possam coexistir em uma mesma pessoa. É como futebol, ou você é flamenguista, ou você é tricolor, ou vascaíno, etc... não dá pra ser de mais de um time ao mesmo tempo. Por isso, desde a guerra dos trinta anos na Europa, percebeu-se que é melhor não impor uma determinada visão (que é consequencia de uma religião) indiscriminadamente sobre um grupo de pessoas.

Pois bem, de que forma isso se aplica ao tema em questão? Ora, a CNBB que emitiu uma nota contra a antecipação terapêutica, tentando torná-la ilegal. Se essa nota se dirigisse à população católica, tudo bem. Dou me apoio. Mas não foi assim,dirigiu-se ao Supremo Tribunal Federal para que decida a favor da posição da Igreja. E a população brasileira que não é católica? Se uma mulher está grávida de um feto anencefálico mas quiser mantê-lo até o final, também não me oponho.

Há uma diferença básica no que diz respeito à cidadania aos valores republicanos ente os médicos que defendem a intervenção e a Igreja. Enquanto aqueles prezam pela liberdade de escolha, a Igreja quer obrigar a população interia do país a viver sob os padrões de sua religião, em total desrespeito à divergência e a um princípio básico para a sanidade de qualquer sociedade que é a luta pela coexistência pacífica.

É em situações como esta que medimos a força de uma democracia e o respeito aos valores republicanos.

sábado, 6 de setembro de 2008

Da impossibilidade de saber

Meus livros me oprimem.

Ao sentar na cadeira, ligar o computador e começar a navegar, eles olham para mim, do alto de sua sabedoria, com indubitável reprovação. Parecem dizer: "tudo que há em nós pra saber aqui, à espera, e você postando em bloguezinhos na internet?!".

Olhar em volta é saber de tudo que não sei. Não sei o pensamento de Mangabeira sobre a esquerda, a história da maior companhia de mercenários do mundo, a história de Kofi Annan, como acabar com a pobreza em uma geração, quais as estratégias dos países desenvolvidos para se desenvolver, qual a política externa dos EUA frente a genocídios...

Pior ainda é abrir o jornal ou a Amazon. Como escolher entre Fukuyama analisando eventos imprevisíveis da política e Rodrik analisando as diferentes políticas econômicas? É justo ter de decidir se quero saber como será o século pós-americano ou como Arrighi vê a ascensão da China?

E como ler todos os livros sem me desconectar do presente?! Como ficar sem ler as análises da The Economist, artigos da Foreign Affairs, relatórios de bancos e colunas do Mainardi (bom, esse é fácil descartar...)?? Como escolher entre o conhecimento acumulado em livros ao longo de décadas e as últimas reportagens sobre guerra na Geórgia, eleições nos EUA, crise no Paquistão, furacão no Haiti?

Minha ignorância me abisma. O pouco que sei de história é nada perto da minha deficiência em teoria econômica; meus parcos conhecimentos de filosofia e sociologia nem de perto compensam minha ignorância sobre matemática e física; o bastante que conheço de política e economia internacionais me bastam, frente à minha impossibilidade de ao menos começar a entender genética, bioquímica, astrofísica ou mecânica quântica?

Minha ignorância não me permite saber o autor da frase, mas com certeza estava certo quem disse que "o conhecimento é limitado; a ignorância, infinita"

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Drogas e Drogas

Fugindo ao renitente tema das olimpíadas, pretendo cumprir meu papel de informar ao cidadão comum sobre temas que não teria contato a não ser que estivesse trabalhando diretamente com eles.

Pois bem, o que são "drogas"? Em português, quando se fala em drogas, imediatamente se pensa em maconha, cocaína, ecstasy, LSD, anfetaminas, metanfetaminas, heroína, e por aí vai. A única coisa em comum a todas estas é que elas são drogas "ilícitas". Diferem do Diazepam (Valium), para citar um exemplo, pois não podem ser consumidas sob hipótese alguma; enquanto este remédio, apesar de todos os riscos que apresenta ao indivíduo, pode ser receitado por médicos em casos de necessidade. Lógicamente, o Diazepam, quando é receitado, ele tem uma função médica clara (acredito), que é curar, ou ajudar na cura de doenças ou problemas que indivíduos venham a ter. As "drogas" difícilmente serão consumidas com a mesma nobre função. Porém, não há nada a priori que diferencie os remédios das drogas - tanto que em inglês, a mesma palavra "drug" se refere às substâncias lícitas e ilícitas, e que aquelas se compram em 'drogarias'. A diferença é que remédios são ministrados sob prescrição, determinando quantidades e frequencia a serem obedecidos pelo consumdor. "Drogas", não.

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Que o consumo de drogas nas grandes metrópoles do mundo apresenta um problema, não restam dúvidas. Mas, está se fazendo tudo o possível para diminuir este problema? Quem usa drogas, alimenta uma economia paralela à estritamente legal, seja ela vinculada ao tráfico internacional de drogas ou não (pois há quem plante maconha em casa e não tenha relação com a criminalidade - lógicamente, sem contar o fato em sí de plantar maconha). Infelizmente, a grande maioria dos consumidores alimentam a primeira turma. Essa turma é a que compra armas para ditar suas leis nos morros do Rio, os que compram armas nos Andes e enfrentam a Colômbia ( bem ou mal uma democracia cujos líderes são eleitos e que tem algum compromisso com o Estado de Direito e os Direitos Humanos ) ou a galera que se arma no Afeganistão e... bem lá os problemas são... mais espetaculares. Imaginem vastas somas de dinheiro (centenas de milhões de dólares) para movimentos criminosos afegões e as últimas cem vezes em que vocês ouviram "Afeganistão" ser mencionado nos últimos 6 anos, 11 meses e 10 dias.

Enfim, nenhum dos três grupos mencionados - os dois últimos, maiores produtores/exportadores de cocaína e ópio, e o primeiro, principal razão de insegurança no Rio de Janeiro - é composto de "gente boa", convenhamos. Não acho uma boa idéia misturar quem consome drogas com essa 'turma'. Porém, a atual legislação obriga isso. As leis de drogas do Brasil não ajudam a reduzir o sofrimento dos viciado em drogas (aliás, um problema de saúde, e não de Segurança Publica/Direito Penal), nem a diminuir o "custo" do consumo de substâncias viciantes em nossa sociedade. Nossas leis são "filhotes" de tratados internacionais, que defendem a total abstinência do uso de substâncias que alteram o estado mental. O abuso de substâncias é um problema. Quem tem/teve amigos viciados conheçe a dor que é, e da importância de lidar com a questão das drogas. Só que a "abstinência" não é uma solução social. Talvez um ou outro indivíduo consiga vencer as drogas através da abstinência, mas uma sociedade inteira não.

A dez anos a ONU se propôs a concentrar esforços para reduzir os níveis de produção, comércio e consumo de entorpecentes adotando o mesmo modelo de política que sempre se usou, o proibicionista. De lá pra cá, os preços das drogas caíram, o número de usuários de drogas aumentou e os países gastam cada vez mais como consequencia desta política. Porém, há alternativas para o controle de drogas. Porque não se discutem essas políticas com maior frequencia?

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Outra questão que eu quero levantar é: se um indivíduo busca a alteração da mente, ele não tem apenas as drogas ilícitas como meio para isso. Pode-se muito bem "abusar" das drogas lícitas, mais específicamente, de drogas vendidas sob receita médica.

Pois bem, coloquei no Google ( "prescritpion drug abuse" ONDCP ) sem os parêntesis e entrei no site da Office of National Drug Control Policy, a agência dos Estados Unidos dedicada a tratar da "questão das drogas" . Para minha surpresa (será?), li que, naquele país, o abuso de drogas vendidas com receita só é ultrapassado pelo abuso da maconha. Como qualquer nível de uso de maconha nos Estados Unidos é abuso, pois seu consumo é proibido, não é de surpreender a constatação. Eu sei que todas as sociedades são sui generis e que os Estados Unidos e o Brasil não são a mesma coisa... mas no quesito "consumo de drogas" devem ser bem parecidos. O que é, de fato, mais perigoso: abusar no uso da maconha, ou abusar no uso de remédios?

Não é a toa que certos remédios são classificados como "tarja preta", indicando que seu uso é controlado. Sua venda só é permitida com apresentação da receita médica, que fica retida na farmácia para que não se compre maior quantidade da substância do que é necessário. Bacana, suponho que seja proibido ir a dois médicos diferentes e conseguir duas receitas iguais, mas será que isso nunca acontece? ou outras tantas maneiras de "burlar o sistema"?

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Ou seja, algumas substâncias são vendidas e financiam a "turma do barulho", enquanto o governo investe no "combate às drogas". Desde outra perspectiva: uma parte da sociedade financia bandidos, que são combatidos pelo governo, que é financiado pela mesma sociedade. Sem sacanagem, vocês esperam alguma solução? Eu não. Para mim seria melhor fazer com que a população financiasse apenas um desses dois lados, e aparentemente a imposição da abstinência não está surtindo efeito.