Então, pra quem não está acompanhando o Greenpeace e a Nestlé estão travando uma verdadeira batalha cybernética. Achei a história interessante, então, o que aconteceu?
Primeiro, a Nestlé compra óleo de palma/azeite de dendê de grupos africanos que exploram a vegetação sem se preocupar com o equilíbrio do Ecossistema. Nesse caso, essa exploração está levando à extinção de orangotangos, além dos outros probleminhas - gradual aumento das mudanças climáticas, aquecimento global, o que os cariocas aqui podem atestar pelo verão de 50ºC.
Kit Kats, sim, os chocolates aparentemente inofensivos, são os principais produtos vendidos com azeite de dendê, então...
Round 1: Greenpeace vs. Nestlé - Vencedor = Greenpeace
Esse é um dos vídeos mais chocantes que eu já vi do Greenpeace, mas consegue passar bem a mensagem. Como era de se esperar, a Nestlé, como qualquer outra marca não ia deixar que sua marca e seus produtos fossem retratados dessa forma... Então, o que eles fizeram? Processaram e tentaram tirar o vídeo do youtube.
Round 2: Nestlé vs. Greenpeace - Vencedor = Greenpeace
Quando empresas vão perceber que grandes processos significam publicidade, publicidade gera curiosidade nas pessoas sobre o vídeo, o que leva a mais hits, e acaba tendo o efeito contrário ao desejado. O vídeo virou viral e o greenpeace utilizou todas as armas possíveis pra fazer que isso acontecesse: Facebook, twitter, vimeo, blogs.
Exemplos:
http://futuremediachange.com/2010/03/nestle-in-epic-social-media-fail/
http://www.facebook.com/greenpeace.international
http://www.facebook.com/pages/Nestle/24287259392?ref=ts
http://weblog.greenpeace.org/climate/2010/03/your_kit_kat_campaigns.html
O problema é que em vez de tentar resolver o problema, como o McDonald's fez na questão da soja e dos nuggets - NÃO ISSO NÃO É UMA RECOMENDAÇÃO DA COMIDA DO MCDONALD's só um reconhecimento de que eles foram mais inteligentes nessa questão - a Nestlé começou a deletar os usuários que reclamavam na sua página do facebook, ser grossos, corrigir a gramática deles, ou seja, tudo que uma empresa poderia fazer para alienar seus seguidores...
Round 3: Greenpeace vs. Nestlé - vencedor = Greenpeace
Último vídeo do greepeace sacaneando a incapacidade da empresa de reverter o desastre de relações públicas que isso se tornou:
Agora, a Nestlé contratou praticamente uma equipe SWAT de relações públicas para contornar a situação. Vamos ver se eles conseguem ganhar o próximo round...
domingo, 21 de março de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Viva Rio abre conta para receber doações para as vítimas de terremoto no Haiti
O centro da capital do Haiti, Porto Príncipe, sofreu um terremoto na tarde desta terça-feira (12) deixando milhares de pessoas desabrigadas, sem luz ou comunicação.
Presente desde 2004 no país, onde desenvolve projetos sociais ligados às áreas de segurança, desenvolvimento e meio ambiente, o Viva Rio mantém uma equipe de mais de 400 pessoas trabalhando nos projetos, sendo nove brasileiros.
Segundo informações do Haiti, os brasileiros que trabalham na ONG e os estudantes da Unicamp que faziam uma pesquisa de campo no país, estão bem. A sede do projeto sofreu apenas pequenas rachaduras e está abrigando milhares de vítimas. O complexo comunitário de 25 mil metros quadrados fica em Bel Air, uma favela no centro da capital.
Os militares brasileiros que fazem parte da Missão de Paz da ONU no Haiti (Minustah) estão trabalhando no atendimento às vítimas, e brigadistas treinados pelo Viva Rio estão se mobilizando para prestar auxílio aos desabrigados.
O aeroporto de Porto Príncipe foi parcialmente destruído dificultando a chegada de alimentos e material para a população desabrigada. O Viva Rio abriu uma conta para receber doações que serão usadas para compra de gêneros alimentícios, água e medicamentos.
Faça a sua doação na conta:
Banco do Brasil
Agência: 1769-8
Conta: 5113-6
Favorecido: VIVA RIO DOAÇÕES
CNPJ: 00343941/0001-28
A Divisão de Assistência Consular (DAC) do Núcleo de Assistência Consular do Ministério das Relações Exteriores colocou linhas de telefone à disposição da população para buscar informações sobre familiares no Haiti:
61 3411-8803/8804/8805/8809/8817/8818/6270/9718
Presente desde 2004 no país, onde desenvolve projetos sociais ligados às áreas de segurança, desenvolvimento e meio ambiente, o Viva Rio mantém uma equipe de mais de 400 pessoas trabalhando nos projetos, sendo nove brasileiros.
Segundo informações do Haiti, os brasileiros que trabalham na ONG e os estudantes da Unicamp que faziam uma pesquisa de campo no país, estão bem. A sede do projeto sofreu apenas pequenas rachaduras e está abrigando milhares de vítimas. O complexo comunitário de 25 mil metros quadrados fica em Bel Air, uma favela no centro da capital.
Os militares brasileiros que fazem parte da Missão de Paz da ONU no Haiti (Minustah) estão trabalhando no atendimento às vítimas, e brigadistas treinados pelo Viva Rio estão se mobilizando para prestar auxílio aos desabrigados.
O aeroporto de Porto Príncipe foi parcialmente destruído dificultando a chegada de alimentos e material para a população desabrigada. O Viva Rio abriu uma conta para receber doações que serão usadas para compra de gêneros alimentícios, água e medicamentos.
Faça a sua doação na conta:
Banco do Brasil
Agência: 1769-8
Conta: 5113-6
Favorecido: VIVA RIO DOAÇÕES
CNPJ: 00343941/0001-28
A Divisão de Assistência Consular (DAC) do Núcleo de Assistência Consular do Ministério das Relações Exteriores colocou linhas de telefone à disposição da população para buscar informações sobre familiares no Haiti:
61 3411-8803/8804/8805/8809/8817/8818/6270/9718
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Cotas, homogeneização e o mundo pós-moderno
Na emocionante aula de Política Externa Brasileira, hoje, surge a velha discussão da qualificação das cotas. Reparação? Nova segregação? (In)Justiça? Erro histórico? Enfim, não vou fazer aqui juízo de valor sobre porque, se você, leitor, está perdendo seu tempo lendo essas palavras, sabe melhor do que eu que há muitos e mais bem informados debatedores sobre a questão. Tenho minha opinião e ponto.
O ponto principal pra se dicutir é: temos um problema. Um problemão. Não é novo - oras, discutir inclusão e exclusão é tão velho quanto andar pra frente, tão velho quanto se formaram as primeiras sociedades e as mesmas quiseram hierarquizar o papel de cada um (leia-se gregos, romanos, chineses, egípcios, fenícios, persas, bla bla bla). Só que para cada época, uma solução foi sempre dada, resolvendo o problema momentaneamente e postergando suas consequências para futuras gerações.
Os gregos diziam que cidadãos eram aqueles que tinham nascido em seu território; o resto eram bárbaros e podiam (e deviam) naturalmente ser escravos para se aproximar do centro cultural do mundo. O problema é que um dia os "bárbaros" eram tão numerosos e, por vezes, tão superiores intelectualmente que a situação ficou insustentável.
Então vieram os romanos e diziam que o Império era o centro do mundo e seus entornos eram povoados por bárbaros. O império se expandiu, se expandiu, se expandiu até o limite máximo - quando não podia mais expandir, não se manteve, pois seu sistema econômico girava em torno das conquistas. E os bárbaros invadiram.
Chineses e não-chineses existiram na época de Qin Shi Huang e a centralização no imperador, do império Song e os mongóis, dos Ming e "a idade de ouro", dos Qing e os manchus e existem até hoje com a tática de homogeneização han. Como visto, perdura.
O Estado-nação como conhecemos é do século XIX. Sua premissa é que, dentro desse território, a homogeneização da população em torno do sentimento nacional é um dado que sustenta as instituições da comunidade política. Mas sentimento nacional é absolutamente excludente: por um lado, porque um Estado só o é assim porque não é igual aos seus vizinhos, logo, quer esse destaque; por outro, porque pra que todos partilhem dos mesmos valores, necessariamente valores minoritários são sumariamente excluídos e varridos pra baixo do tapete. Quando do século XIX e os problemas da expansão imperial intra-européia e de alocação trabalhista pós-revolução industrial, isso era uma beleza, funcionava todos os problemas. O ponto é que o mundo moderno do século XIX não existe mais.
As alocações trabalhistas nacionais já transbordaram pro internacional desde, pelo menos, a década de 70. O fluxo migratório legal ou ilegal (casos da Europa e EUA/Am. Central, por exemplo) é um dado que contesta a homogeneização. A globalização nos traz uma mundialização cultural que, se afloura a cultura local por um lado, tenta impôr outra global (McDonald's, Hollywood, Coca-Cola, futebol, bla bla bla).
O mundo é pós-moderno. Mas as instituições nas quais vivemos são modernas. O Estado. A Nação. A Soberania. É lidar com instrumentos do passado aos problemas do presente e futuro. É o problema da Igreja no Renascimento. É o problema da França pré-revolucionária no antigo regime. É o problema da Terra com as questões globais. É o problema dos terráqueos quando da invasão dos ETs em "Independence Day" (Hollywood...)
No Brasil, não é diferente - tirando os ETs (sorry, Serra). A homogeneização racial do século XIX quando da abolição da escravidão e da formação do sentimento nacional brasileira não foi baseado na "mistura das raças", mas na branquização (mais que "étnica", cultural) da população. Até então, resolvera o problema do sentimento nacional, mas empurrava os outros pra baixo do tapete. O ponto é que esse tapete tem um limite e não esconde mais tanta coisa. Daí os problemas, daí o debate (que é produtivo, por favor!), e daí, infelizmente, a ausência de soluções além da dicotomia positivista de inclusão/exclusão, cotas/ausência.
Trabalhemos para idealizar e formar, na prática, tais instituições. Só não esperemos que inquisições, cabeças cortadas ou um presidente norte-americano dirigindo um caça contra uma nave gigante seja nossa salvação...
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
O Circo bizarro que é o casamento
Francamente, ultimamente algumas coisas têm me irritado. Eu adoro filmes, sério. Mas filmes com premissas de duas amigas brigando por causa de uma data de casamento me dá nos nervos! QUEM SÃO ESSAS PESSOAS? Que tipo de melhores amigas são essas?
Tá, concordo que eu não seja a melhor pessoa para discutir casamentos. Mas não passa pela cabeça desses roteiristas que algumas mulheres não necessariamente querem casar e ter 20 milhões de filhos. Apesar das propagandas, desenhos e contos de fada algumas de nós consideram o casamento uma instituição falida, mas esse nem é meu ponto. Quer dizer, é parte dele. E os homens? Se comparamos eu e meu amigo Fernando, que por acaso acabou de postar, ele é muito mais adepto da coisa. Então, se esse tipo de homem existe, qual é o objetivo das amigas malucas pelo casamento?
Eu entendo as pessoas que gostam do ritual (e blá blá blá), mas me parece incrivelmente arcaico, que no pleno século XXI, durante dois anos os grandes blockbusters foram filmes nos quais a protagonista ou as protagonistas só tinham um grande objetivo - o casamento.
Sei lá, depois da revolução feministas, mulheres ocupando o espaço de trabalho... E anos, décadas, séculos de filmes com a mesma premissa, as coisas podiam ser um pouco diferentes.
O pior de tudo... O que é realmente pior é que, de fato, existem pessoas assim. Casamentos marcados com 5 anos antes, grandes festas com pombos com chapeuzinho... Tudo isso é assustador demais. Casamentos não são uma celebração do amor das pessoas? Como pombas de chapéu podem significar amor incondicional, eu não sei.
Até porque se o casamento é o único objetivo de alguém na vida, e essa pessoa está disposta a perder grandes amizades por isso, e fazerem pobres pombos inocentes usarem chapéus... ELA É UMA IDIOTA!
Tá, concordo que eu não seja a melhor pessoa para discutir casamentos. Mas não passa pela cabeça desses roteiristas que algumas mulheres não necessariamente querem casar e ter 20 milhões de filhos. Apesar das propagandas, desenhos e contos de fada algumas de nós consideram o casamento uma instituição falida, mas esse nem é meu ponto. Quer dizer, é parte dele. E os homens? Se comparamos eu e meu amigo Fernando, que por acaso acabou de postar, ele é muito mais adepto da coisa. Então, se esse tipo de homem existe, qual é o objetivo das amigas malucas pelo casamento?
Eu entendo as pessoas que gostam do ritual (e blá blá blá), mas me parece incrivelmente arcaico, que no pleno século XXI, durante dois anos os grandes blockbusters foram filmes nos quais a protagonista ou as protagonistas só tinham um grande objetivo - o casamento.
Sei lá, depois da revolução feministas, mulheres ocupando o espaço de trabalho... E anos, décadas, séculos de filmes com a mesma premissa, as coisas podiam ser um pouco diferentes.
O pior de tudo... O que é realmente pior é que, de fato, existem pessoas assim. Casamentos marcados com 5 anos antes, grandes festas com pombos com chapeuzinho... Tudo isso é assustador demais. Casamentos não são uma celebração do amor das pessoas? Como pombas de chapéu podem significar amor incondicional, eu não sei.
Até porque se o casamento é o único objetivo de alguém na vida, e essa pessoa está disposta a perder grandes amizades por isso, e fazerem pobres pombos inocentes usarem chapéus... ELA É UMA IDIOTA!
Os de Cá e os de Lá (ou Lula e seus 84%)
No início dessa semana, no meio da mal-fadada crise financeira, foi anunciado que o presidente Lula atingiu o extraordinário patamar de 84% de aprovação. A despeito do que possa parecer em um primeiro momento, não vou questionar o número e a pesquisa ou muito menos me posicionar dentro ou fora desse grupo majoritário, mas, sim, alertar para as graves consequências dessa constatação.
O Brasil é um país democrático. Com todas as suas falhas institucionais, problemas sociais ou anacronismos práticos, somos a terceira maior democracia do mundo em população e instituições eleitorais que há mais de 20 anos funcionam com bastante acurácia (salvo casos de fraude que continuam existindo aqui e ali). Democrático como tal, portanto, funciona sob o auspício de um sistema multipartidário que, teoricamente, corresponde às nuances políticas de nossa população, num contínuo que vai desde uma "extrema direita" à la o extinto PRONA até a "extrema esquerda" do PCO passando por todas as sopas de letrinhas possíveis e imagináveis de esquerda, direita e centro. Além disso, tem, também em teoria, três poderes que se complementam e se vigiam, fazendo a máquina do Estado atuar (bem ou mal... não vou fazer esse juizo agora)
O ponto é que quando um desses três poderes consegue, sob a égide de uma pessoa, uma aprovação de mais de 8 em cada 10 brasileiros, essas instituições se enfraquecem profundamente. Primeiro pelo problema óbvio: a confiança não é na instituição em si, no caso o executivo, mas em uma pessoa, o presidente Lula - dessa forma, esse sistema de "confiança" no indivíduo se limita, justamente, a ele e tão somente ele. Dessa forma, levando o argumento ao extremo, se o que, hoje, faz a máquina estatal funcionar é o presidente Lula, tirando ele da equação (seja por um desastre agora ou mesmo pelo fim do mandato ano que vem) o motor para. E dá-lhe crise. (A não ser, também, que haja mais um mandato - mas é outra discussão boa, mas que vou evitar por aqui; o objetivo não é tratar de "populismo", "neopopulismo", "lulismo" ou seja lá o "ismo" que quiserem apelidar)
Mas uma preocupação maior, e pouco mencionada em críticas políticas atuais, faz parte da lógica do jogo político. Quem, atualmente, no Brasil, é oposição? Consegue pensar em algum político que nas últimas eleições, durante a crise, na recente eleição à presidência do Senado ou em qualquer evento no último ano que tenha criticado o presidente dos 84%? Quem, em são consciência dos perigos de uma crítica que seja, quer ser parte dos 16% da minoria? Esses, os 16, elegem pouco ou nada em 2010. Os 84 são passaporte de reeleição.
Exemplos estão aí pra comprovar. Aqui no Rio, nas últimas eleições, uma das coisas mais esquizofrênicas dos últimos anos (e olha que esquizofrenia na eleição à prefeitura do Rio não é difícil de encontrar!): dos 5 mais bem votados no primeiro turno, 4 tinham o apoio do/queriam o apoio do/tiravam fotos abraçados com/dormia ao lado da foto do presidente. Molon, do partido do presidente, seria o apoio natural de Lula e fez sua campanha toda em torno da imagem do mesmo. Jandira, do PC do B, afirmava categoricamente que Lula sabia, no fundo, que ela era a candidata certa, relembrando dos tempos em que ambos atuavam em conjunto e quando ela sempre era sua preferida. Crivella, do PRB (que começou as pesquisas de intenção liderando disparado), era sabidamente o "preferido" de Lula e a aposta do presidente pro Rio, sendo que ele explorou tanto esse fato que o PT do Rio entrou na justiça para que ele não veiculasse tanto sua imagem ao nosso senhor dos nove dedos. Por fim, Eduardo Paes, que acabou sendo o prefeito eleito, fez sua campanha baseada na união da prefeitura, Estado e União, batendo repetida (e irritantemente) na mesma tecla - sendo ele, o próprio Paes, um dos últimos políticos que tiveram a infeliz idéia de ir contra o presidente, 2 anos atrás, ao criticar duramente o filho de Lula. Dois anos depois, se arrependeu, mandou carta à primeira-dama pedindo desculpas, conseguiu o apoio do homem e foi eleito.
Outro exemplo categórico do perigo da falta de oposição foi a já mencionada recente eleição do Senado. Havia um candidato, Tião Viana, do partido do presidente; muitos senadores achavam que ele não dariam conta; fizeram pressão no ex-presidente Sarney, atual senador pelo PMDB (maior aliado da base do PT, ante sua maioria nas duas casas do Legislativo), que pleiteou a vaga. Configurou-se, então, que situação disputava com... situação pela presidência do Senado. Então, o PSDB, a recente-histórica oposição ao PT desses últimos 20 anos, em uma jogada inusitada, afirmou que não iria apoiar o favorito, Sarney, mas, sim, sua oposição - o candidato do partido do presidente. Noves-fora toda a discussão que se ouve sempre quando se fala do legislativo (de "farinha do mesmo saco" pra baixo), um espetacular seis por meia dúzia ficou configurado. Ah, sim, Sarney ganhou. Ganha Lula (tinha como perder essa?).
Enquanto isso, nos EUA, democracia bipartidária, uma interessante situação inversa ocorre. Longe de venerar o sistema bipartidário ou o cheio-de-defeitos-e-pouco-democrático sistema democrático americano, é interessante verificar que, dois dias depois da posse de Obama (que sucedeu uma acachapante vitória nas eleições), um dos mais festejados presidentes das últimas décadas tanto nos EUA quanto no exterior, o seu rival nas eleições, senador republicano John McCain criticou a decisão desse de iniciar o processo de desativação de Guantanamo. Uma semana depois, os senadores republicanos já colocaram vários entraves ao projeto de resgate à economia americana, inclusive exigindo controversas medidas protecionistas. Também afirmaram que a nova lei de imigrantes não sairá tão cedo ante os perigos da atual crise. Enfim, está discutindo as matérias, fazendo seu papel de oposição, não abaixando a cabeça e dizendo "amém" às ações do novo presidente.
Concluindo por aqui pela grande extensão desse texto, mas não por falta de outros exemplos que aqui caberiam, alerto: democracia é situação e oposição, é debate, é maioria e minoria, sim, mas com voz e atuação efetiva dessa minoria. De Tocqueville, filósofo político francês, grande entusiasta da democracia ameriana, descreveu suas maravilhas e vantagens acima de qualquer outro sistema político existente no século XVIII. Atentou, porém, ao grande perigo da mesma: a tirania da maioria, quando a maioria exclui a voz da minoria e permanece comandando as instituições, aumentando sua maioria e eliminando qualquer voz dissidente.
Os de Lá aprenderam com de Tocqueville e (críticas ao sistema bipartidário à parte) debates acerca de qualquer matéria não faltam, seja iniciados por situação ou oposição. Os de Cá se escondem atrás do indivíduo que controla a máquina, que controla as instituições, pois é alavancado pela maiora. Os de Lá discutem; os Daqui, nem dizem nada.
O Brasil é um país democrático. Com todas as suas falhas institucionais, problemas sociais ou anacronismos práticos, somos a terceira maior democracia do mundo em população e instituições eleitorais que há mais de 20 anos funcionam com bastante acurácia (salvo casos de fraude que continuam existindo aqui e ali). Democrático como tal, portanto, funciona sob o auspício de um sistema multipartidário que, teoricamente, corresponde às nuances políticas de nossa população, num contínuo que vai desde uma "extrema direita" à la o extinto PRONA até a "extrema esquerda" do PCO passando por todas as sopas de letrinhas possíveis e imagináveis de esquerda, direita e centro. Além disso, tem, também em teoria, três poderes que se complementam e se vigiam, fazendo a máquina do Estado atuar (bem ou mal... não vou fazer esse juizo agora)
O ponto é que quando um desses três poderes consegue, sob a égide de uma pessoa, uma aprovação de mais de 8 em cada 10 brasileiros, essas instituições se enfraquecem profundamente. Primeiro pelo problema óbvio: a confiança não é na instituição em si, no caso o executivo, mas em uma pessoa, o presidente Lula - dessa forma, esse sistema de "confiança" no indivíduo se limita, justamente, a ele e tão somente ele. Dessa forma, levando o argumento ao extremo, se o que, hoje, faz a máquina estatal funcionar é o presidente Lula, tirando ele da equação (seja por um desastre agora ou mesmo pelo fim do mandato ano que vem) o motor para. E dá-lhe crise. (A não ser, também, que haja mais um mandato - mas é outra discussão boa, mas que vou evitar por aqui; o objetivo não é tratar de "populismo", "neopopulismo", "lulismo" ou seja lá o "ismo" que quiserem apelidar)
Mas uma preocupação maior, e pouco mencionada em críticas políticas atuais, faz parte da lógica do jogo político. Quem, atualmente, no Brasil, é oposição? Consegue pensar em algum político que nas últimas eleições, durante a crise, na recente eleição à presidência do Senado ou em qualquer evento no último ano que tenha criticado o presidente dos 84%? Quem, em são consciência dos perigos de uma crítica que seja, quer ser parte dos 16% da minoria? Esses, os 16, elegem pouco ou nada em 2010. Os 84 são passaporte de reeleição.
Exemplos estão aí pra comprovar. Aqui no Rio, nas últimas eleições, uma das coisas mais esquizofrênicas dos últimos anos (e olha que esquizofrenia na eleição à prefeitura do Rio não é difícil de encontrar!): dos 5 mais bem votados no primeiro turno, 4 tinham o apoio do/queriam o apoio do/tiravam fotos abraçados com/dormia ao lado da foto do presidente. Molon, do partido do presidente, seria o apoio natural de Lula e fez sua campanha toda em torno da imagem do mesmo. Jandira, do PC do B, afirmava categoricamente que Lula sabia, no fundo, que ela era a candidata certa, relembrando dos tempos em que ambos atuavam em conjunto e quando ela sempre era sua preferida. Crivella, do PRB (que começou as pesquisas de intenção liderando disparado), era sabidamente o "preferido" de Lula e a aposta do presidente pro Rio, sendo que ele explorou tanto esse fato que o PT do Rio entrou na justiça para que ele não veiculasse tanto sua imagem ao nosso senhor dos nove dedos. Por fim, Eduardo Paes, que acabou sendo o prefeito eleito, fez sua campanha baseada na união da prefeitura, Estado e União, batendo repetida (e irritantemente) na mesma tecla - sendo ele, o próprio Paes, um dos últimos políticos que tiveram a infeliz idéia de ir contra o presidente, 2 anos atrás, ao criticar duramente o filho de Lula. Dois anos depois, se arrependeu, mandou carta à primeira-dama pedindo desculpas, conseguiu o apoio do homem e foi eleito.
Outro exemplo categórico do perigo da falta de oposição foi a já mencionada recente eleição do Senado. Havia um candidato, Tião Viana, do partido do presidente; muitos senadores achavam que ele não dariam conta; fizeram pressão no ex-presidente Sarney, atual senador pelo PMDB (maior aliado da base do PT, ante sua maioria nas duas casas do Legislativo), que pleiteou a vaga. Configurou-se, então, que situação disputava com... situação pela presidência do Senado. Então, o PSDB, a recente-histórica oposição ao PT desses últimos 20 anos, em uma jogada inusitada, afirmou que não iria apoiar o favorito, Sarney, mas, sim, sua oposição - o candidato do partido do presidente. Noves-fora toda a discussão que se ouve sempre quando se fala do legislativo (de "farinha do mesmo saco" pra baixo), um espetacular seis por meia dúzia ficou configurado. Ah, sim, Sarney ganhou. Ganha Lula (tinha como perder essa?).
Enquanto isso, nos EUA, democracia bipartidária, uma interessante situação inversa ocorre. Longe de venerar o sistema bipartidário ou o cheio-de-defeitos-e-pouco-democrático sistema democrático americano, é interessante verificar que, dois dias depois da posse de Obama (que sucedeu uma acachapante vitória nas eleições), um dos mais festejados presidentes das últimas décadas tanto nos EUA quanto no exterior, o seu rival nas eleições, senador republicano John McCain criticou a decisão desse de iniciar o processo de desativação de Guantanamo. Uma semana depois, os senadores republicanos já colocaram vários entraves ao projeto de resgate à economia americana, inclusive exigindo controversas medidas protecionistas. Também afirmaram que a nova lei de imigrantes não sairá tão cedo ante os perigos da atual crise. Enfim, está discutindo as matérias, fazendo seu papel de oposição, não abaixando a cabeça e dizendo "amém" às ações do novo presidente.
Concluindo por aqui pela grande extensão desse texto, mas não por falta de outros exemplos que aqui caberiam, alerto: democracia é situação e oposição, é debate, é maioria e minoria, sim, mas com voz e atuação efetiva dessa minoria. De Tocqueville, filósofo político francês, grande entusiasta da democracia ameriana, descreveu suas maravilhas e vantagens acima de qualquer outro sistema político existente no século XVIII. Atentou, porém, ao grande perigo da mesma: a tirania da maioria, quando a maioria exclui a voz da minoria e permanece comandando as instituições, aumentando sua maioria e eliminando qualquer voz dissidente.
Os de Lá aprenderam com de Tocqueville e (críticas ao sistema bipartidário à parte) debates acerca de qualquer matéria não faltam, seja iniciados por situação ou oposição. Os de Cá se escondem atrás do indivíduo que controla a máquina, que controla as instituições, pois é alavancado pela maiora. Os de Lá discutem; os Daqui, nem dizem nada.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
A História do Cotidiano
Em meio à essa crise de proporções hercúleas, pensar que estamos vivendo um capítulo que entrará, daqui a 10 anos, nos livros de história não é exagero.
Para quem estuda a história e vê uma conexão direta entre passado, presente e futuro, às vezes é complicado distanciar-se o suficiente para ter essa noção do que, de fato, hoje, fará alguma, qualquer diferença em 10, 50 ou 200 anos. Em 10 anos o problema entre a Rússia e a Geórgia ainda terá relevância; em 50, a invasão ao Iraque provavelmente ainda terá; em 200, temos o 11 de setembro que, aposto, será marco fundamental de "eras históricas"
O próprio conceito de "era" é problemático. Obviamente algo post facto, determina, de forma arbitrária, um sistema, um "modo de produção", valores comuns, culturas, enfim, mostra a diferença de algo mais antigo com algo mais recente. Claro que tentar engessar algo fluido, artificializar um objeto não-articializável, não só é problemático como errado; mas não deixa de ser, grosso modo, uma forma de explicar o mundo à nossa maneira.
Entrando nesse espírito, em que era vivemos? Os tempos contemporâneos, marcados pela revolução francesa? Mas o que nos liga aos europeus dos fins de século XVIII, aos impérios do século XIX? Qual a correlação entre as Guerras Napoleônicas, as Guerras Mundiais, a Guerra Fria e a "Guerra contra o Terror"? Mesmo os costumes, a cultura, o "modo de produção" ou seja lá como quiser definir uma era histórica - é a mesma?
Não, não vivemos em uma mesma era. A era é nova. Talvez a Era Atômica pós-Segunda Guerra. Quem sabe a Era do Espaço pós-chegada à Lua. Talvez também a Era da Globalização pós-choques do petróleo. Ou a Era da Hegemonia pós-Guerra Fria? Pra mim, mais do que isso.
Explico: uma das formas de separação das eras é a energia principal utilizada para o desenvolvimento humano. Força do homem, na pré-história; tração animal na idade antiga; traça maquinária na idade média; carvão na idade moderna; petróleo na contemporaneidade - bem aproximado e grosseiro, mas é comum ver ciclos de energia na história do homem e como a necessidade de produção/busca por eficiência/sobrevivência leva a novas formas energéticas mais eficientes e, daí, uma mudança brusca no sistema produtivo, social, econômico, político vigente. Oras, ainda que o petróleo seja a principal força energética que nos sustenta, entramos em nova era - a Era Atômica. O fim da Segunda Guerra poderia ser uma data suficiente para essa Era, absolutamente diferente da anterior e com sua constância sócio-política-econômica própria.
Ou não. O estudo da história foi sempre muito concentrado na Europa e tais "eras" pautam-se exclusivamente na história européia; algo absolutamente insuficiente para o mundo como um todo. Pensar, portanto, no mundo como um todo poderia nos levar a uma nova forma de categorização, de acordo com a aproximação de civilizações, por exemplo. Encontros raros, primeiras formas de diplomacia com China-Roma, o sistema tributário chinês, as grandes navegações, as colonizações, os Impérios, as Guerras Mundiais, a globalização e o "choque de civilizações" - exemplos grosseiros de eras do mundo, dessa forma.
Mas o mundo é feito por pessoas, não Estados ou afins. Definir, pois, eras de um mundo pautado em acordos de personalidades e heróis ou burocracias impessoais é sair da história que vivemos do cotidiano. Qual é o seu papel pra história? Nenhum? Votar em um outro alguém que ficará "famoso"? Virar um número em uma manifestação, em um Censo, em um genocídio? Ou passar, despercebido, na história?
Ou podemos parar de divagar sobre essas bobeiras positivistas e parar de cristalizar esse fluxo de mão única que é a história. Mas, sim, nos perguntar: a atual crise financeira que estamos vivendo será importante daqui a 10 anos? 50? 200? Mudará o mundo? Ou só dela nos lembraremos na "Retrospectiva 2008" da Globo?
Para quem estuda a história e vê uma conexão direta entre passado, presente e futuro, às vezes é complicado distanciar-se o suficiente para ter essa noção do que, de fato, hoje, fará alguma, qualquer diferença em 10, 50 ou 200 anos. Em 10 anos o problema entre a Rússia e a Geórgia ainda terá relevância; em 50, a invasão ao Iraque provavelmente ainda terá; em 200, temos o 11 de setembro que, aposto, será marco fundamental de "eras históricas"
O próprio conceito de "era" é problemático. Obviamente algo post facto, determina, de forma arbitrária, um sistema, um "modo de produção", valores comuns, culturas, enfim, mostra a diferença de algo mais antigo com algo mais recente. Claro que tentar engessar algo fluido, artificializar um objeto não-articializável, não só é problemático como errado; mas não deixa de ser, grosso modo, uma forma de explicar o mundo à nossa maneira.
| Pré-história Das origens do homem até c. 4000 a.C. | Antiguidade De c. 4000 a.C. a 476 | Idade Média De 476 a 1453 | Idade Moderna De 1453 a 1789 | Idade Contemporânea de 1789 aos dias atuais |
Entrando nesse espírito, em que era vivemos? Os tempos contemporâneos, marcados pela revolução francesa? Mas o que nos liga aos europeus dos fins de século XVIII, aos impérios do século XIX? Qual a correlação entre as Guerras Napoleônicas, as Guerras Mundiais, a Guerra Fria e a "Guerra contra o Terror"? Mesmo os costumes, a cultura, o "modo de produção" ou seja lá como quiser definir uma era histórica - é a mesma?
Não, não vivemos em uma mesma era. A era é nova. Talvez a Era Atômica pós-Segunda Guerra. Quem sabe a Era do Espaço pós-chegada à Lua. Talvez também a Era da Globalização pós-choques do petróleo. Ou a Era da Hegemonia pós-Guerra Fria? Pra mim, mais do que isso.
Explico: uma das formas de separação das eras é a energia principal utilizada para o desenvolvimento humano. Força do homem, na pré-história; tração animal na idade antiga; traça maquinária na idade média; carvão na idade moderna; petróleo na contemporaneidade - bem aproximado e grosseiro, mas é comum ver ciclos de energia na história do homem e como a necessidade de produção/busca por eficiência/sobrevivência leva a novas formas energéticas mais eficientes e, daí, uma mudança brusca no sistema produtivo, social, econômico, político vigente. Oras, ainda que o petróleo seja a principal força energética que nos sustenta, entramos em nova era - a Era Atômica. O fim da Segunda Guerra poderia ser uma data suficiente para essa Era, absolutamente diferente da anterior e com sua constância sócio-política-econômica própria.
Ou não. O estudo da história foi sempre muito concentrado na Europa e tais "eras" pautam-se exclusivamente na história européia; algo absolutamente insuficiente para o mundo como um todo. Pensar, portanto, no mundo como um todo poderia nos levar a uma nova forma de categorização, de acordo com a aproximação de civilizações, por exemplo. Encontros raros, primeiras formas de diplomacia com China-Roma, o sistema tributário chinês, as grandes navegações, as colonizações, os Impérios, as Guerras Mundiais, a globalização e o "choque de civilizações" - exemplos grosseiros de eras do mundo, dessa forma.
Mas o mundo é feito por pessoas, não Estados ou afins. Definir, pois, eras de um mundo pautado em acordos de personalidades e heróis ou burocracias impessoais é sair da história que vivemos do cotidiano. Qual é o seu papel pra história? Nenhum? Votar em um outro alguém que ficará "famoso"? Virar um número em uma manifestação, em um Censo, em um genocídio? Ou passar, despercebido, na história?
Ou podemos parar de divagar sobre essas bobeiras positivistas e parar de cristalizar esse fluxo de mão única que é a história. Mas, sim, nos perguntar: a atual crise financeira que estamos vivendo será importante daqui a 10 anos? 50? 200? Mudará o mundo? Ou só dela nos lembraremos na "Retrospectiva 2008" da Globo?
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Igreja, Estado e o Aborto de Anencefálicos
Esta semana, entre muitas notícias espetaculosas, vimos que o STF determinou que o julgamento a respeito da legalidade de realizar aborto no caso de gestação de bebês anencefálicos - aqueles que não terão cerébro (ou o terão mal formado) e, portanto, não conseguirão sobreviver muito tempo após o parto. A respeito deste tópico, tenho apenas dois comentários:
1- A Igreja, e o lobby anti-aborto de um modo geral, estava usando como bandeira o caso em que uma menina sobreviveu por cerca de um ano e oito meses sendo anencefálica. Sucede que, na verdade, não era anencefálica. Uma junta de médicos foi ao STF e explicou que a menina sofria de uma outra doença que compartilhava algumas semelhanças na fisionomia do paciente com a anencefalia. Será que houve má vontade por parte do lobby anti-escolha ou foi falta de informação que os levou a levantar esta falsa bandeira?
2- Que raios está fazendo a Igreja no Judiciário, me explica. Até onde eu sei, o Brasil é um Estado Laico, com explícita separação entre a máquina pública e a Igreja. É claro que as religiões têm como influenciar decisões políticas, afinal de contas é sua obrigação prover uma liderança moral e espiritual para seus seguidores. Mas é só pra eles. Apenas o Estado brasileiro deve ter capacidade de influenciar/determinar o que acontece na nossa sociedade de forma universal, independente de raça, sexo, religião, filiação política e demais clivagens; e mesmo assim obedecendo a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição Brasileira.
A separação entre Estado e Igreja não é um vício mesquinho da modernidade. É um avanço na busca da humanidade em tentar evitar conflitos perigosos, aqueles que uma vez que entram numa espiral descendente, raramente acabam sem deixar cicatrizes numa sociedade.
As religiões, de modo geral, atuam no campo da moral, no sistema de valores de seus seguidores, elas influenciam o modo de se enxergar o mundo. Como há diversas religiões, é bem provável que duas ou mais não possam coexistir em uma mesma pessoa. É como futebol, ou você é flamenguista, ou você é tricolor, ou vascaíno, etc... não dá pra ser de mais de um time ao mesmo tempo. Por isso, desde a guerra dos trinta anos na Europa, percebeu-se que é melhor não impor uma determinada visão (que é consequencia de uma religião) indiscriminadamente sobre um grupo de pessoas.
Pois bem, de que forma isso se aplica ao tema em questão? Ora, a CNBB que emitiu uma nota contra a antecipação terapêutica, tentando torná-la ilegal. Se essa nota se dirigisse à população católica, tudo bem. Dou me apoio. Mas não foi assim,dirigiu-se ao Supremo Tribunal Federal para que decida a favor da posição da Igreja. E a população brasileira que não é católica? Se uma mulher está grávida de um feto anencefálico mas quiser mantê-lo até o final, também não me oponho.
Há uma diferença básica no que diz respeito à cidadania aos valores republicanos ente os médicos que defendem a intervenção e a Igreja. Enquanto aqueles prezam pela liberdade de escolha, a Igreja quer obrigar a população interia do país a viver sob os padrões de sua religião, em total desrespeito à divergência e a um princípio básico para a sanidade de qualquer sociedade que é a luta pela coexistência pacífica.
É em situações como esta que medimos a força de uma democracia e o respeito aos valores republicanos.
1- A Igreja, e o lobby anti-aborto de um modo geral, estava usando como bandeira o caso em que uma menina sobreviveu por cerca de um ano e oito meses sendo anencefálica. Sucede que, na verdade, não era anencefálica. Uma junta de médicos foi ao STF e explicou que a menina sofria de uma outra doença que compartilhava algumas semelhanças na fisionomia do paciente com a anencefalia. Será que houve má vontade por parte do lobby anti-escolha ou foi falta de informação que os levou a levantar esta falsa bandeira?
2- Que raios está fazendo a Igreja no Judiciário, me explica. Até onde eu sei, o Brasil é um Estado Laico, com explícita separação entre a máquina pública e a Igreja. É claro que as religiões têm como influenciar decisões políticas, afinal de contas é sua obrigação prover uma liderança moral e espiritual para seus seguidores. Mas é só pra eles. Apenas o Estado brasileiro deve ter capacidade de influenciar/determinar o que acontece na nossa sociedade de forma universal, independente de raça, sexo, religião, filiação política e demais clivagens; e mesmo assim obedecendo a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição Brasileira.
A separação entre Estado e Igreja não é um vício mesquinho da modernidade. É um avanço na busca da humanidade em tentar evitar conflitos perigosos, aqueles que uma vez que entram numa espiral descendente, raramente acabam sem deixar cicatrizes numa sociedade.
As religiões, de modo geral, atuam no campo da moral, no sistema de valores de seus seguidores, elas influenciam o modo de se enxergar o mundo. Como há diversas religiões, é bem provável que duas ou mais não possam coexistir em uma mesma pessoa. É como futebol, ou você é flamenguista, ou você é tricolor, ou vascaíno, etc... não dá pra ser de mais de um time ao mesmo tempo. Por isso, desde a guerra dos trinta anos na Europa, percebeu-se que é melhor não impor uma determinada visão (que é consequencia de uma religião) indiscriminadamente sobre um grupo de pessoas.
Pois bem, de que forma isso se aplica ao tema em questão? Ora, a CNBB que emitiu uma nota contra a antecipação terapêutica, tentando torná-la ilegal. Se essa nota se dirigisse à população católica, tudo bem. Dou me apoio. Mas não foi assim,dirigiu-se ao Supremo Tribunal Federal para que decida a favor da posição da Igreja. E a população brasileira que não é católica? Se uma mulher está grávida de um feto anencefálico mas quiser mantê-lo até o final, também não me oponho.
Há uma diferença básica no que diz respeito à cidadania aos valores republicanos ente os médicos que defendem a intervenção e a Igreja. Enquanto aqueles prezam pela liberdade de escolha, a Igreja quer obrigar a população interia do país a viver sob os padrões de sua religião, em total desrespeito à divergência e a um princípio básico para a sanidade de qualquer sociedade que é a luta pela coexistência pacífica.
É em situações como esta que medimos a força de uma democracia e o respeito aos valores republicanos.
sábado, 6 de setembro de 2008
Da impossibilidade de saber
Meus livros me oprimem.
Ao sentar na cadeira, ligar o computador e começar a navegar, eles olham para mim, do alto de sua sabedoria, com indubitável reprovação. Parecem dizer: "tudo que há em nós pra saber aqui, à espera, e você postando em bloguezinhos na internet?!".
Olhar em volta é saber de tudo que não sei. Não sei o pensamento de Mangabeira sobre a esquerda, a história da maior companhia de mercenários do mundo, a história de Kofi Annan, como acabar com a pobreza em uma geração, quais as estratégias dos países desenvolvidos para se desenvolver, qual a política externa dos EUA frente a genocídios...
Pior ainda é abrir o jornal ou a Amazon. Como escolher entre Fukuyama analisando eventos imprevisíveis da política e Rodrik analisando as diferentes políticas econômicas? É justo ter de decidir se quero saber como será o século pós-americano ou como Arrighi vê a ascensão da China?
E como ler todos os livros sem me desconectar do presente?! Como ficar sem ler as análises da The Economist, artigos da Foreign Affairs, relatórios de bancos e colunas do Mainardi (bom, esse é fácil descartar...)?? Como escolher entre o conhecimento acumulado em livros ao longo de décadas e as últimas reportagens sobre guerra na Geórgia, eleições nos EUA, crise no Paquistão, furacão no Haiti?
Minha ignorância me abisma. O pouco que sei de história é nada perto da minha deficiência em teoria econômica; meus parcos conhecimentos de filosofia e sociologia nem de perto compensam minha ignorância sobre matemática e física; o bastante que conheço de política e economia internacionais me bastam, frente à minha impossibilidade de ao menos começar a entender genética, bioquímica, astrofísica ou mecânica quântica?
Minha ignorância não me permite saber o autor da frase, mas com certeza estava certo quem disse que "o conhecimento é limitado; a ignorância, infinita"
Ao sentar na cadeira, ligar o computador e começar a navegar, eles olham para mim, do alto de sua sabedoria, com indubitável reprovação. Parecem dizer: "tudo que há em nós pra saber aqui, à espera, e você postando em bloguezinhos na internet?!".
Olhar em volta é saber de tudo que não sei. Não sei o pensamento de Mangabeira sobre a esquerda, a história da maior companhia de mercenários do mundo, a história de Kofi Annan, como acabar com a pobreza em uma geração, quais as estratégias dos países desenvolvidos para se desenvolver, qual a política externa dos EUA frente a genocídios...
Pior ainda é abrir o jornal ou a Amazon. Como escolher entre Fukuyama analisando eventos imprevisíveis da política e Rodrik analisando as diferentes políticas econômicas? É justo ter de decidir se quero saber como será o século pós-americano ou como Arrighi vê a ascensão da China?
E como ler todos os livros sem me desconectar do presente?! Como ficar sem ler as análises da The Economist, artigos da Foreign Affairs, relatórios de bancos e colunas do Mainardi (bom, esse é fácil descartar...)?? Como escolher entre o conhecimento acumulado em livros ao longo de décadas e as últimas reportagens sobre guerra na Geórgia, eleições nos EUA, crise no Paquistão, furacão no Haiti?
Minha ignorância me abisma. O pouco que sei de história é nada perto da minha deficiência em teoria econômica; meus parcos conhecimentos de filosofia e sociologia nem de perto compensam minha ignorância sobre matemática e física; o bastante que conheço de política e economia internacionais me bastam, frente à minha impossibilidade de ao menos começar a entender genética, bioquímica, astrofísica ou mecânica quântica?
Minha ignorância não me permite saber o autor da frase, mas com certeza estava certo quem disse que "o conhecimento é limitado; a ignorância, infinita"
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Drogas e Drogas
Fugindo ao renitente tema das olimpíadas, pretendo cumprir meu papel de informar ao cidadão comum sobre temas que não teria contato a não ser que estivesse trabalhando diretamente com eles.
Pois bem, o que são "drogas"? Em português, quando se fala em drogas, imediatamente se pensa em maconha, cocaína, ecstasy, LSD, anfetaminas, metanfetaminas, heroína, e por aí vai. A única coisa em comum a todas estas é que elas são drogas "ilícitas". Diferem do Diazepam (Valium), para citar um exemplo, pois não podem ser consumidas sob hipótese alguma; enquanto este remédio, apesar de todos os riscos que apresenta ao indivíduo, pode ser receitado por médicos em casos de necessidade. Lógicamente, o Diazepam, quando é receitado, ele tem uma função médica clara (acredito), que é curar, ou ajudar na cura de doenças ou problemas que indivíduos venham a ter. As "drogas" difícilmente serão consumidas com a mesma nobre função. Porém, não há nada a priori que diferencie os remédios das drogas - tanto que em inglês, a mesma palavra "drug" se refere às substâncias lícitas e ilícitas, e que aquelas se compram em 'drogarias'. A diferença é que remédios são ministrados sob prescrição, determinando quantidades e frequencia a serem obedecidos pelo consumdor. "Drogas", não.
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Pois bem, o que são "drogas"? Em português, quando se fala em drogas, imediatamente se pensa em maconha, cocaína, ecstasy, LSD, anfetaminas, metanfetaminas, heroína, e por aí vai. A única coisa em comum a todas estas é que elas são drogas "ilícitas". Diferem do Diazepam (Valium), para citar um exemplo, pois não podem ser consumidas sob hipótese alguma; enquanto este remédio, apesar de todos os riscos que apresenta ao indivíduo, pode ser receitado por médicos em casos de necessidade. Lógicamente, o Diazepam, quando é receitado, ele tem uma função médica clara (acredito), que é curar, ou ajudar na cura de doenças ou problemas que indivíduos venham a ter. As "drogas" difícilmente serão consumidas com a mesma nobre função. Porém, não há nada a priori que diferencie os remédios das drogas - tanto que em inglês, a mesma palavra "drug" se refere às substâncias lícitas e ilícitas, e que aquelas se compram em 'drogarias'. A diferença é que remédios são ministrados sob prescrição, determinando quantidades e frequencia a serem obedecidos pelo consumdor. "Drogas", não.
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Que o consumo de drogas nas grandes metrópoles do mundo apresenta um problema, não restam dúvidas. Mas, está se fazendo tudo o possível para diminuir este problema? Quem usa drogas, alimenta uma economia paralela à estritamente legal, seja ela vinculada ao tráfico internacional de drogas ou não (pois há quem plante maconha em casa e não tenha relação com a criminalidade - lógicamente, sem contar o fato em sí de plantar maconha). Infelizmente, a grande maioria dos consumidores alimentam a primeira turma. Essa turma é a que compra armas para ditar suas leis nos morros do Rio, os que compram armas nos Andes e enfrentam a Colômbia ( bem ou mal uma democracia cujos líderes são eleitos e que tem algum compromisso com o Estado de Direito e os Direitos Humanos ) ou a galera que se arma no Afeganistão e... bem lá os problemas são... mais espetaculares. Imaginem vastas somas de dinheiro (centenas de milhões de dólares) para movimentos criminosos afegões e as últimas cem vezes em que vocês ouviram "Afeganistão" ser mencionado nos últimos 6 anos, 11 meses e 10 dias.
Enfim, nenhum dos três grupos mencionados - os dois últimos, maiores produtores/exportadores de cocaína e ópio, e o primeiro, principal razão de insegurança no Rio de Janeiro - é composto de "gente boa", convenhamos. Não acho uma boa idéia misturar quem consome drogas com essa 'turma'. Porém, a atual legislação obriga isso. As leis de drogas do Brasil não ajudam a reduzir o sofrimento dos viciado em drogas (aliás, um problema de saúde, e não de Segurança Publica/Direito Penal), nem a diminuir o "custo" do consumo de substâncias viciantes em nossa sociedade. Nossas leis são "filhotes" de tratados internacionais, que defendem a total abstinência do uso de substâncias que alteram o estado mental. O abuso de substâncias é um problema. Quem tem/teve amigos viciados conheçe a dor que é, e da importância de lidar com a questão das drogas. Só que a "abstinência" não é uma solução social. Talvez um ou outro indivíduo consiga vencer as drogas através da abstinência, mas uma sociedade inteira não.
A dez anos a ONU se propôs a concentrar esforços para reduzir os níveis de produção, comércio e consumo de entorpecentes adotando o mesmo modelo de política que sempre se usou, o proibicionista. De lá pra cá, os preços das drogas caíram, o número de usuários de drogas aumentou e os países gastam cada vez mais como consequencia desta política. Porém, há alternativas para o controle de drogas. Porque não se discutem essas políticas com maior frequencia?
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Outra questão que eu quero levantar é: se um indivíduo busca a alteração da mente, ele não tem apenas as drogas ilícitas como meio para isso. Pode-se muito bem "abusar" das drogas lícitas, mais específicamente, de drogas vendidas sob receita médica.
Pois bem, coloquei no Google ( "prescritpion drug abuse" ONDCP ) sem os parêntesis e entrei no site da Office of National Drug Control Policy, a agência dos Estados Unidos dedicada a tratar da "questão das drogas" . Para minha surpresa (será?), li que, naquele país, o abuso de drogas vendidas com receita só é ultrapassado pelo abuso da maconha. Como qualquer nível de uso de maconha nos Estados Unidos é abuso, pois seu consumo é proibido, não é de surpreender a constatação. Eu sei que todas as sociedades são sui generis e que os Estados Unidos e o Brasil não são a mesma coisa... mas no quesito "consumo de drogas" devem ser bem parecidos. O que é, de fato, mais perigoso: abusar no uso da maconha, ou abusar no uso de remédios?
Não é a toa que certos remédios são classificados como "tarja preta", indicando que seu uso é controlado. Sua venda só é permitida com apresentação da receita médica, que fica retida na farmácia para que não se compre maior quantidade da substância do que é necessário. Bacana, suponho que seja proibido ir a dois médicos diferentes e conseguir duas receitas iguais, mas será que isso nunca acontece? ou outras tantas maneiras de "burlar o sistema"?
Pois bem, coloquei no Google ( "prescritpion drug abuse" ONDCP ) sem os parêntesis e entrei no site da Office of National Drug Control Policy, a agência dos Estados Unidos dedicada a tratar da "questão das drogas" . Para minha surpresa (será?), li que, naquele país, o abuso de drogas vendidas com receita só é ultrapassado pelo abuso da maconha. Como qualquer nível de uso de maconha nos Estados Unidos é abuso, pois seu consumo é proibido, não é de surpreender a constatação. Eu sei que todas as sociedades são sui generis e que os Estados Unidos e o Brasil não são a mesma coisa... mas no quesito "consumo de drogas" devem ser bem parecidos. O que é, de fato, mais perigoso: abusar no uso da maconha, ou abusar no uso de remédios?
Não é a toa que certos remédios são classificados como "tarja preta", indicando que seu uso é controlado. Sua venda só é permitida com apresentação da receita médica, que fica retida na farmácia para que não se compre maior quantidade da substância do que é necessário. Bacana, suponho que seja proibido ir a dois médicos diferentes e conseguir duas receitas iguais, mas será que isso nunca acontece? ou outras tantas maneiras de "burlar o sistema"?
Ou seja, algumas substâncias são vendidas e financiam a "turma do barulho", enquanto o governo investe no "combate às drogas". Desde outra perspectiva: uma parte da sociedade financia bandidos, que são combatidos pelo governo, que é financiado pela mesma sociedade. Sem sacanagem, vocês esperam alguma solução? Eu não. Para mim seria melhor fazer com que a população financiasse apenas um desses dois lados, e aparentemente a imposição da abstinência não está surtindo efeito.
sábado, 30 de agosto de 2008
PROCURA-SE SG!

A Organização das Nações Unidas vêm por meio deste iniciar sua campanha "Procura-se um Secretário Geral".
Enquanto Geórgia e Rússia envolvem-se num conflito sem precedentes nos últimos anos e as tensões entre os russos e o Ocidente elevam-se; enquanto o Zimbábue continua em um impasse institucional, e Mugabe se recusa a deixar o poder; enquanto o governo de Musharraf cai e a situação do Paquistão é incerta; enquanto a Mauritânia vê seus militares darem um golpe no presidente...
POR ONDE ANDA NOSSO SECRETÁRIO GERAL?
A ausência de condenações, demonstrações de preocupação e articulação política por parte de nosso SG nos faz lançar esta campanha para que, no mínimo, saibamos por onde anda nosso querido SG.Estamos abertos a opçõe alternativas, como Secretários-Gerais reciclados!
Interessados no posto favor entrar em contato com koffiannan_wannabe@un.org.
Grata,
Nações Unidas
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